A faca da vida

O amor e uma faca.

Oras, qual e a semelhança que um dos mais nobres sentimentos humanos (e cada vez mais achincalhado) e um mero utensílio de cozinha teriam entre si?

Ambos nos cortam, ferem, sangram… dos mais sensíveis aos mais cascudos. Um dia, todos levaremos um corte do amor. O amor é a arma branca da vida. Da mesma maneira que ela vai usar essa “faca” para dividir coisas boas e momentos que valem a pena, vai usar para ferir quando ela assim desejar. E vai jorrar sangue com gosto de vinho… “in vino veritas“.

A verdade da tal beleza da vida esta aí, nos cortes que a mesma nos dá. E são desses cortes que precisamos nos regenerar, de alguma forma. Por mais que pareça doloroso.

Como diria Belchior: “Toda cor corre para o azul”.

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Crônica – O inovador

Dia desses um garoto se encantou pela menina mais bonita de sua rua. Linda como a luz da lua. Mas não sabia o que dizer a ela e nem tão pouco se ela daria atenção a ele depois disso. Ele teve então a ideia de escrever uma carta a punho. Mas uma carta? Nesse mundo tao metido a moderno, dos smartphones e tablets, quem diabos ainda escreve carta a mão? Que coisa cafona…

Cafona? Que nada. Ele achou melhor “inovar” e provar a essa garota que ele era um rapaz diferente.

Mas surgia um outro problema: o que escrever nessa carta? Ele pensou em todos os textos clichés que existem na Internet. Todas as poesias mais famosas, as músicas melosas mais procuradas… até as declarações que as crianças usam (bem do tipo “Com A escrevo amor, com P escrevo paixão…”). Mas ele achou melhor” inovar” e mostrar a aquela dama que ele era um rapaz diferente. Então, apenas escreveu:

Só por abrir esta carta e ler as primeiras palavras, é sinal que você se importou de alguma forma com minha atitude. Talvez as demais linhas lhe façam se importar com o que sinto por você. E, se ainda não forem o bastante, eu lhe agradeço, pois por alguns instantes seus olhos e sua atenção estiveram apontadas a mim. Pode não parecer, mas hoje em dia isso talvez me importe bem mais do que um beijo casual que me darias. Pois através de pequenos passos se constrói uma longa caminhada.A moça olhou o papel, leu, releu, refletiu… mas nunca respondeu aquela carta. Seguiu a sua vida sem dar uma resposta. Nem era preciso. Por dentro ela nunca mais foi a mesma. Aprendeu que as grandes histórias começam sempre pelos pequenos gestos.

Uma crônica numa noite chuvosa de relâmpagos e trovões.

Heaven

Nunca usei o Post pra comentar sobre coisas de cunho pessoal ou usar como forma de desabafo (se já usei, não lembro a ocasião). Até por achar que não é o local apropriado e alem do que nenhum visitante (tão poucos) tem nada a ver com dissabores que a vida nos traga. Todavia por hoje me permito a quebrar a regra de forma sutil, pois os dedos pedem e clamam para agir e se expressar de alguma maneira. Na verdade, deve ser mais do que isso, o que chamam de alma é que precisa falar. Perdoem por isso.

Se para muita gente as duvidas que mais aflingem a humanidade é a de quem nasceu primeiro (o ovo ou a galinha) ou de quem roeu a roupa do rei de Roma, a minha é entender a razão do mundo ou que vocês chamam de destino ser tão intrigante comigo e em parte das vezes “malvado”. Uma música de George Michael diz que “O céu manda, o céu rouba” (“Heaven sent, heaven stole”). E isso tem me intrigado e causado inquietude. Sinto que às vezes o “céu” me testa. Não sei por qual razão ou necessidade. Mas me submeto a inúmeros testes e deve sentir certo prazer masoquista em me reprovar a maioria deles.

Nestes anos, o “céu”, “heaven” ou seja lá que nome se de, tem me colocado diante de algumas pessoas fantásticas. Eu tive a sorte de conhecer grandes pessoas por esse tempo. Não me arrependo de 95% das pessoas que passaram pela minha vida. Mas da mesma forma que ele manda, ele tem roubado quando quer. Às vezes sem esperar, às vezes depois de um longo e desgastante processo. Mas sempre roubando (stole, para os íntimos).

Cerca de 12 anos atrás fui colocado diante da pessoa que mais amei na vida e que sonhei em ter todos esses salamaleques que alguém pensa em ter pra sua vida (parecido com a tal história dos dois filhos e um cachorro, que nem diz aquela musica).  Ele me tirou duas vezes essa pessoa e não mais me devolveu mais. A cinco anos atrás, me deparo diante da história que mais mexeu comigo pelo curto espaço de tempo. Outra pessoa que “heaven” me mandou. E por duas vezes me tirou de novo. Pior, uma parcialmente e a segunda de forma definitiva. E curiosamente agora tudo se repete da mesma forma. “Heaven” mandou e de novo tirou quando quis. De uma forma que só ele deve saber o porquê fez.

Arrependimento de ter tentado? Nenhum. Raiva? Zero. Apenas uma certa perplexidade de não entender por qual razão isso acontece. Devem ser aqueles mistérios da vida que nossa vã filosofia não consegue explicar. Mas há de haver uma explicação.

Nunca me considerei uma pessoa perfeita, imune a erros e isenta de falhas com os outros. Sei que devo ter falhado com ambas as citadas e com muito mais gente nesse período. Mas não entendo o porquê de tanto dissabor. Talvez por “heaven” entender que agora não é a hora de mandar de vez. O que eu tento entender é a razão disso tudo. Já decorei a sensação desse aperto de garganta, o mesmo que estes últimos dias tem me dado quase que de hora em hora. E ainda sim vez ou outra preciso ser submetido a sentir ele de novo, como se fosse um vício.

Poucas pessoas de hoje no meu convívio sabem o que foi para mim ter de lidar por anos e anos com dor. No caso, a dor física. Aquela que vez ou outra vinha por acidentes. Não vou descrever o processo, pois não há como sentir dor por uma tela, então é inútil. Mas posso garantir a vocês. A diferença da dor física pras famosas dores do coração é que uma delas você sabe quando começa e pode calcular quando termina (e pode acelerar seu término por vários meios). A dor da vida é bem verdade que vai passar um dia, mas não se sabe quando. Pois o remédio age lentamente.

Qual remédio? Aquele tal de tempo que tanta gente fala por aí. Perigo é ter que tomar esse remédio com alguém tão perto dos olhos e tão longe de você.

E se afastar? Pode ser muito pior que qualquer efeito colateral que remédios tenham.

Resta então a resignação de entender o tal “heaven”, por ter mandado de novo e ter roubado pra si mais uma vez. Três vezes eu creio que seja a cota máxima para suportar. Não me mande mais se for para isso tudo acontecer de novo. E se ainda sim mandar, que seja a definitiva. Caso não, eu me recusarei a aceitar qualquer envio. É preferível andar por essa estrada sozinho a ser submetido a isso.

E não se causem espantos. Eu de verdade cada dia menos visualizando terminando meus dias com alguém por essas coisas. Pela pura exaustão de ter tentado tanto e nada dar certo no final. É o velho “jogar como nunca e perder como sempre”. Talvez seja melhor assim, viver sozinho, com companhias mais dóceis de se lidar, como a literatura, a música, o futebol e dentre outras coisas intangíveis. No passado eu pensava diferente, achava muito injusto alguém nascer para viver sozinho. Com o tempo, você percebe que até acaba sendo melhor em certos casos. Não seria o meu, mas talvez esse seja o “fardo” que deva carregar pelos poucos meses ou anos que restam por aqui. Poucos, pois cada dia mais entendo que meu tempo vai passando. Não falo isso por conta do que está acontecendo. Medo eu tenho, espero que demore um pouco ainda, mas não há o que fazer se esses pressentimentos forem reais.

23h46min do oitavo dia de Março de 2015. E assim terminou talvez a semana mais triste dos últimos anos (ao menos para mim). Uma semana onde mais do que nunca “heaven” mostrou o seu lado cruel. De me mandar e roubar com a mesma rapidez. Gostaria muito que daqui a 14 minutos começasse uma nova fase, como um livro branco, com tudo novo e sem tanta tristeza. Deveria isso a algumas pessoas que merecem não me ver assim. Mas não tenho muitas esperanças nisso. Ainda faltam algumas linhas da história anterior serem escritas.

Mas não custa torcer que dessa vez seja diferente.

PS: Desculpem mais uma vez o desabafo.

Crônica: Dissecando um fulano chamado erro

Erros

Em 2014 uma palavra rondou muito minha cabeça, especialmente por coisas ocorridas no segundo semestre em específico: erro. É uma palavrinha curta, quatro letrinhas, duas consoantes, duas vogais, mas de consequências danosas para quem conhece e comete. Eu pensei e me perguntei muito sobre isso, se eu teria caído nesta “armadilha” de ter errado (sangue perfeccionista tem alergia a ele). Mas se tem uma coisa que esse período de descanso em casa (que por sinal acaba na próxima semana) tem me feito é refletir sobre essas causas e consequências que a vida traz vez ou outra para nós.

Vamos combinar uma coisinha? Qualquer decisão que você tome vai ter um efeito positivo e negativo. O que vai pesar na balança é o quão um ou outro é mais intenso na atitude que você venha a tomar. Não cabe entrar em detalhes. No meu caso, havia um caminho muito claro e evidente a seguir, eu optei por outro já sabendo de algumas consequências dele. Mas não calculei a intensidade. Se esse é o chamado “erro”, ok. Ai de fato eu cometi um e não vou me atrever de dizer que não houve intenção. Eu fiz o que era preciso fazer no momento e a surpresa para mim foi o prolongamento disso. Então, a minha atitude um erro não foi. Longe de ser ou me achar infalível (nem quero ser), mas nunca se erra diante de um bem maior que você mesmo. E não, não estou exagerando. Como diria Franklin Roosevelt, “o único homem que não erra é o que nunca faz nada”.

Sempre tive isso em mente: É melhor você cometer um “erro” na tentativa do êxito do que ser omisso e não tentar. Talvez falte isso no mundo hoje em dia. Muita gente se esconde, falta coragem. De falar e fazer o que é preciso ou o que os seus instintos mandam. Sabendo evidente que haverá consequências, mas é preciso agir, tentar, arriscar, seja o nome que se de.

As férias de verão me trouxeram essa lição (além de que a dor de dente queiro é a dor mais chata que alguém sem nada pra fazer pode sentir). Na verdade eu já tinha isso comigo. Longe das coisas que fiz em 2014 especialmente tenham sido ruins. Pelo contrário, se tivessem dado certo (e ai são outros 500) teria sido o melhor dos acertos. E mesmo assim eu ainda considero que o insucesso de fato foi um sucesso.

Por falar em erro, acabei de ser “xingado” por ter usado uma palavra (concordo, com dupla conotação mas não no sentido danoso) a uma pessoa. Mas o erro maior foi da mesma de não ter procurado saber o que eu quis de fato dizer. Preferiu me xingar. E ai? Quem errou?

O estressado de hoje é o consumidor de Captropil de amanhã.

E pra não me xingar de novo, procure ler antes o que é Captropil: http://pt.wikipedia.org/wiki/Captopril

 

Comentários a respeito de Charlie

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Não escondo de ninguém minha admiração profunda por Belchior. Para mim, um gênio da nossa MPB. E que falta nos faz um Belchior nos dias de hoje na música, pois  além de grande cantor, ele era um visionário. Um cara que em plenos anos 70 cantou e escreveu de muitas coisas certas e erradas que vivemos hoje em dia.

Em 1976 ele compôs “Como o Diabo Gosta”, uma das faixas de “Alucinação” que é um dos melhores e senão o melhor disco da carreira dele e de toda aquela década. Uma música que muito fala do que aconteceu esta semana em Paris, onde a mando de um “mestre”, terroristas ceifaram a vida de 12 pessoas na invasão a sede do jornal Charlie Hebdo. Vejam bem, Belchior em 1976 na sua música já cantava a bola do que veríamos anos depois em doses cavalares.

A quem não conhece a música, aqui esta:

Não quero regra nem nada

Tudo tá como o diabo gosta, tá,

Já tenho este peso, que me fere as costas,

e não vou, eu mesmo, atar minha mão.

 

O que transforma o velho no novo

bendito fruto do povo será.

E a única forma que pode ser norma

é nenhuma regra ter;

é nunca fazer nada que o mestre mandar.

Sempre desobedecer.

Nunca reverenciar

 

Reverenciar em excesso é o portão de entrada para o fanatismo. E não estou só falando de religião e tão pouco de X religião. Qualquer coisa na vida onde se coloque o fanatismo por trás e nocivo. Destrói nosso senso critico. E um povo que não pensa, a sociedade padece.

Não existem vencedores e nem derrotados no que aconteceu esses dias na França, a terra da Liberdade, Igualdade e Fraternidade. Todos foram derrotados. Mutilados pela intolerância. Estamos num mundo cada vez mais sombrio e caminhando para um buraco negro intelectualmente falando. Vivemos num mundo cada dia mais irracional, fanático, maluco, onde a vida de qualquer pessoa pode ser julgada pelo simples ato de desenhar uma charge. O medo esta aos poucos ganhando a guerra e isso precisa ser invertido.

O meu medo é que outras “Charlie Hebdo” mundo afora sejam vitimas do fanatismo em outras ramificações. Aqui no Brasil mesmo, alguns terreiros de Umbanda, por exemplo, já foram vitimas de “atentados”, bem menos violentos é verdade. Mas, com a mesma dose de intolerância. E não só a religião padece desse mal. Outros setores da sociedade, o fanatismo ganha cada vez mais espaço. Vide por exemplo os que matam por um clube de futebol (no caso uma torcida organizada), por um partido político ou até por escola de samba (aproveitando o carnaval chegando).

 

“Je suis Charlie”? Certamente. Mas o melhor seria dizer que somos todos “livres”. Para respeitar qualquer posição, contrária ou não a sua. E que ninguem precise derramar sangue por isso.